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Good times for a change,

Mas continua tudo igual.

sábado, 26 de abril de 2008

A saia e a sacolinha

Eu não sou cleptomaníaca. Ufa. Depois de ver que o negocinho que apita (alguém por favor me empresta um dicionário português-português) ainda estava lá e a nota fiscal, que eu juro por todos os deuses, eu tinha jogado dentro da sacola, tinha sumido, a minha primeira reação foi conferir o débito do cartão. Considerando que eu já tinha desligado o bendito laptop e minha boca estava abrindo na mesma proporção em que meus olhos estavam fechando, o meu desespero em me realizar, aos recém-completados 23 anos, ladrinha de loja de departamento foi sincero e absoluto. Recapitulando. Comprei uma saia na minha loja predileta/acessível aqui de Nova Yorque, a tal da Forever 21, por exatos $ 10,50, porém, contudo, entretanto, todavia (o meu português tarda mas não falha, viu só), o mocinho do caixa não retirou a coisinha que apita e eu, atenta e cuidadosa como sou, não percebi o fato. Passei contente com a minha sacolinha cinza pela Levi’s, Armani Exchange e Bloomingdale’s, deixando sempre um sonoro apito de alarme no meu rastro ao sair das respectivas, e fui direto pra casa. Assim que cheguei, peguei a saia, me posicionei em frente ao espelho amigo e tirei a calça do pijama de vaquinha (as filas são imensas na Forever e eu nunca tenho paciência para experimentar antes de comprar, como vocês viram a saia não é nenhuma fortuna, então levei assim mesmo). Quando fui abrir a saia para vestir, me deparei com o trenzinho, o que apita e o que me fez apitar. Como eu tinha certeza de que tinha jogado a nota fiscal dentro da sacola, inclusive tenho a imagem guardada na memória, não fiquei muito preocupada. Até me deparar com a completa inexistência do papel dentro dela. OMG. OMFG. A cena voltou na minha cabeça como se estivesse voltando o filme da fita cassete, e, de repente, não mais que de repente, eu duvidei de mim mesma. Liguei o computador, acessei o site e vi que a página do banco me dizia: “hello, você acabou de gastar $ 10, 50, de forma que o seu saldo é de $ 3, 00!”. Conseguindo provar o fato (para a minha consciência) de que eu tinha a ficha limpa, lembrei que eu não poderia trocar a saia na loja e perguntei para o Rodrigo o que fazer. Ele, que adora um malfeito, chegou à conclusão de que sozinho conseguiria remover o bichinho que apita, e, eu, genialmente, concordei. Então, ele se posicionou em frente ao balcão da pia da “cozinha” e começou a bater o trequinho que apita, depois, jogou a saia no chão e pisou em cima dele, então tentou arrancar na base da faca, e, já quase o mordendo, viu que não adiantava mais, que ele não saía, mas, em compensação, soltava uma tal de tinta inteligente que manchava a saia, para sempre.

No outro dia, fomos ao Soho, e, em plena Broadway, entre Prince e Houston, entramos na Forever em busca do meu direito. O direito de vestir uma saia novinha, sem macha e sem apitar. Como era de se esperar, a luta não foi fácil e por uma questão de insistência e talvez sorte (pois o cara que atendeu foi o mesmo que deixou o tal do redondinho lá na saia) conseguimos levar uma nova saia mostarda pra casa. Mas o final não foi feliz, pois o zíper da nova saia estava estragado. E ainda está, porque sem a tal da notinha eu não posso trocar nada e as outras duas lojas recusaram a transação. Amanhã, dependendo do meu humor, volto lá no Soho e enfrento o gentil vendedor novamente. Ele vai vibrar ao me ver. E eu vou sorrir um sorriso gélido e espontâneo.

Porque não é gostoso esperar o N ou o W (linha amarela do metrô) pra ir para o Soho e entrar numa loja que não é nem lá a cara do Soho, pela terceira vez, sabendo que serei maltratada. Muito menos é justo ser maltratada sabendo que o erro não foi meu. Pior ainda é saber que apesar do erro não ser meu, eu desacreditei de mim, eu duvidei da minha sanidade, eu me pus à prova, para ser então absorvida pela página do banco, na internet. Esse país me deixou louca. Mas cleptomaníaca eu não sou, pode acreditar.

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